Maternidade x Carreira: perda da fertilidade (parte 1)

         infertilidade-femininaNos anos de 1960 nasce o movimento feminista estendendo- se pelo mundo ocidental. Com isso nasce também um novo discurso feminino: começa- se a questionar o mito da passividade da mulher, da “submissão”, diminui- se a importância da mãe instintivamente dedicada e sacrificada, como a única razão para a felicidade e realizações de vida. Em seguida, surge  pílula anticoncepcional, fazendo com que a mulher opte ou não por ter filhos, ou seja, elas começam a refletir sobre o que efetivamente querem, tendo a possibilidade de não mais cumprirem um destino que lhes cabe, pelo simples fato de terem nascido no sexo feminino.

         Segundo Lopes(2010), atualmente, ainda que estejam aumentando cada vez mais a multiplicidade de experiências femininas, as mulheres continuam sendo de alguma forma submetidas aos antigos valores, ou seja, ao mesmo tempo que há um incentivo a profissionalização da mulher e uma cobrança por parte da família e da sociedade para que as meninas estudem e tenham uma carreira profissional, permanece a expectativa de que no futuro elas venham cumprir o papel de mãe.

        Em decorrência de toda essa mudança no âmbito feminino, o “ser mãe” para algumas mulheres não é mais entendido como objetivo primário, já que a carreira se tornou a fonte de realização pessoal. Porém, conforme o tempo passa, o adiamento da maternidade, acaba por gerar um aumento de mulheres sem filhos, muitas vezes também pela dificuldade em encontrar um parceiro adequado para formar uma família. Algumas mulheres quando decidem que é o momento certo para gerar um bebê, não conseguem , por conta da idade avançada, provocando a infertilidade.

          De acordo com Gomes, Donelli,  Picciini & Lopes (2003), do ponto de vista emocional, os estudos relatam tanto uma postura facilitadora quanto dificultadora do processo de transição para a maternidade, de grávidas de mais de trinta anos. Os pontos facilitadores seria uma maior maturidade da mulher, suas relações sociais mais bem resolvidas, melhores condições de saúde mental e maior condição psíquica de viver momentos de estresse, por ter uma identidade mais ajustada fazendo com que esteja mais bem preparada para promover o desenvolvimento emocional do seu filho. Os pontos dificultadores seriam : disposição física reduzida, maior preocupação em relação a gravidez e ao parto, além dos riscos de complicações genéticas no bebê.

         Mesmo com as constantes mudanças da sociedade nas últimas décadas, pesquisas apontam para o fato de que uma mulher infértil continua a ser vista como triste e incompleta. Segundo Maluf (2007), isto se daria porque as pessoas acreditam que elas estão impedidas de vivenciar o que é apontado como a fonte máxima da realização feminina, a maternidade. Além disso acredita- se que essas mulheres são solitárias, frustradas e inferiores, dentre outas cosias.

Estudos como o de Trindade & Enumo (2002) apontam metáforas depreciativas utilizadas para se referir as mulheres que não tem filhos, sempre ancoradas na associação simbólica mulher-natureza (“tronco oco”, “arvore sem frutos”, “árvore seca”, “terra árida”, dentre outras). Em conjunto com termos e expressões como “incompleta” e “pessoa inferior”, elas sinalizariam a permanecia do estigma da infertilidade feminina no pensamento social.

         É possível observar que a não maternidade provoca o rompimento de um modelo feminino tradicional. Estudos a respeito da maternidade tardia demonstram que uma das motivações da mulher seria colocar a carreira em primeiro lugar, obtendo sucesso profissional para depois planejar sua vida familiar, consequentemente, muitas mulheres  vivenciam momentos de angústia, por essa falta de sincronia entre o tempo pessoal, o relógio biológico e o tempo cronológico dessas realizações.

        Segundo Rocha-Coutinho (2005), mesmo as mulheres que adiam a gravidez em função da sua realização profissional, e que continuam a acreditar na sua capacidade reprodutiva , quando enfrentam a dolorosa realidade da infertilidade, da dificuldade/impossibilidade de conceber sentem- se devastadas. O adiamento da maternidade , esperando firmar- se profissionalmente e conseguir independência econômica , se estende em alguns casos , por tanto tempo que as condições apropriadas nunca chegam, ou somente chegam quando a gravidez passa a ser de risco, e, então o projeto de ser mãe pode se tornar praticamente inviável para elas.

Referências:

Lopes, H. P. Ser pai e ser mãe no século XXI. Desejo aliado a tecnologia. Bandeirante, 2010.

Gomes, A G., Donelli. T. M.,  Picciini, C. A.,  & Lopes. R. C., Maternidade em idade avançada: aspectos teóricos e empíricos. 2008.

Trindade, Z. A e Enumo, S.R. Triste e incompleta: Uma visão feminina da mulher infértil. 2002.

Rocha Coutinho, M. L. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares. Rocco 1994.

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